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domingo, agosto 17, 2008

Ineficaz

Ineficaz
o calor frio
de braços imóveis
que fingem uma quentura
que de tão fria
não esquenta ninguém

Ineficaz
as batidas de um peito
que dentro
não mora alguém
como um cemitério sem cadáver
na penumbra das horas
que algum dia hão de passar
talvez... de forma ineficaz...

Complexo

Meu bem
Meu mal
Meu céu
Meu mel
Meu fel
Meu véu
Meu oceano
Meu mar tenebroso
Meu álibi
Minha culpa
Meu norte
Minha sorte
Meu caminho pra morte?
Meu canto
Meu conto de fadas
Minha raiz
Meu pesadelo
Meu escuro
Meu sol
Meu templo
Meu relento
Meu céu estrelado
Minha folha
Minha calma
Meu desespero
Minha lágrima
Meu sorriso
Meu abrigo
Minha pintura de gesso
Meu chão
Meu segredo
Meu desejo
Meu espelho
Meu frio
Meu calor
Meu raio
Meu sopro
Minha cela
Minha janela
Minha corrente
Minhas asas
Minha chave
Meu porto de pedras
Minha paisagem
A maior tatuagem
Da alma minha

Submersos

Raios da lua
Tu vês como as águas correm?
Em mar aberto...
Oceano profundo...
Tudo corre escondido,
Os sorrisos nadam submersos
As lágrimas nadam em correntes profundas
Os peixes conhecem os sentidos
A lua compartilha os segredos
...segredos jamais descobertos
A paixão inunda as praias
Razão de não haver abismos? ... ninguém sabe
Noite afora
Silêncio profundo
Beleza a amostra
O que há de errado no mistério?
As almas são caladas
Falam com palavras mudas
E dizem muito com o silêncio
Apenas os raios da lua podem compreender.

Noite fria

A brisa da noite fria
Toca meu rosto mais frio ainda...
Eu abro as mãos num gesto repentino
Tento apanhar uma folha caindo
Mas ela prefere tocar o chão!

Cai chuva de mel
No meu rosto
O que me faz esperar um beijo
E o meu que pesa mais sobre meu desejo

Eu tento olhar
Para todas as direções
...mas nada vejo

Eu rezo que amanheça
Num piscar de olhos
A noite me causa medo
E eu posso me afogar
Nesse mar de tantos segredos!

O rio

Pobre rio que corre sozinho
... a água tranqüila
Faz amor com os peixes,
Os peixes nela procriam,
Talvez a deixando feliz
Mas será que a água pediu essa vida?
Talvez a água chore...
Mas quem iria perceber?
A água tem tanta água
Que nunca alguém pode saber.

Mais uma vez o tempo...

O tempo torna tudo tão passageiro
Faz um segundo de um riso
Ser esquecido e se tornar em lágrima
Torna um grande amor
Uma grande dor.
Um grande segredo
Em um longo e inesquecível beijo
... torna a lua escurecida
E o sol iluminado
O tempo é o grande vilão
E o principal moçinho
De todas as novelas românticas
O próprio tempo
Torna todas as vidas um romance

Pena a vida ter que acabar pra gente
Poder descobrir o fim!

Beijos

Depois do primeiro beijo
O que vem?
Vem beijo vem

Depois do segundo beijo
O que vem?
Vem beijo vem

Depois do terceiro beijo
O que vem?
Vem beijo vem...

Depois do quarto beijo
O que vem?
Vem beijo vem

Mas o que acontece no ultimo beijo?
tristeza vem...

Do amor que se acaba

A hora da partida
Foi muito próxima a hora da chegada
E o amparo cálido da madrugada
Observou o próprio tempo.

O homem marcou o dado
Do jogo que ninguém quer jogar
E é positiva a chegada
E negativa a partida

Triste, foi embora
Feliz, um dia trouxe a vida
Qual foi a flor que desabrochou?
De quem foi o mel que se gastou?

A semelhança não dói
Tanto quanto a diferença.
E de onde surgem as regras?
Quem as criou?

O chão frio se alimenta de algum calor
A ponte de estrelas se apagou
Já não há mais veneno
Já não há mais amor...

Pedaço de inverno

A alvorada surge
Num tom prateado
O orvalho fino
Quem diria... transborda!

Os sapos pulam
Duma vitória - régea para a outra
E o mato verde
Parece ainda mais verde

A melodia que se ouve agora
São folhas sacudindo
E o som imponente dos ventos

Frios pingos d’água
Cobrem de frio a Yara
E assim navegam tranqüilos os marinheiros

Minha janela

Da janela da minha cabana
Bem no fundo do quintal
Vi passar o inverno
Vi chegar o natal...

Da janela da minha cabana
Vi uma estrela cadente
E fiz três pedidos:
_Deus, peço que ele fique comigo!
_Deus, quero que ele fique comigo!
_Deus, deixe que ele fique comigo!

Da janela da minha cabana
Vi o outono chegar
Vi um pássaro cantar
Vi uma estrelinha chorar
E aparei uma de suas lágrimas...

Da janela da minha cabana
Vi o tempo passar
Ouvi o velho sino badalar
Vi uma rosa desabrochar
Vi quando ele passou
E eu não pude acompanhar..

Por isso derrubei minha cabana...
Para não ter mais nenhuma janela
Para não saber mais nada
Para não acreditar em estrelas cadentes
Para não perder mais nada
Para não ter que esquecer mais ninguém...